INVASOR ABSTRACTO #8
ciclo A PASSAGEM
A PASSAGEM é um ciclo de residências de longa duração, para o qual são convidadas estruturas artísticas nacionais a trabalharem no Fundão, com o objetivo de partilha com a comunidade da sua identidade, dos seus processos e criações e de novas criações como resultado da sua passagem pelo nosso território.
O INVASOR ABSTRACTO
“Invasor Abstracto” é um projecto dedicado à circulação de diferentes constelações de membros do colectivo OSSO integrando, neste caso, as contribuições de Ricardo Jacinto, Rita Thomaz e Ricardo Vieira. Nas suas diversas iterações intersectam-se os territórios criativos de cada autor(a) numa viagem imaginada entre o seu centro criativo (Aldeia de São Gregório, Caldas da Rainha) e os espaços e comunidades que os acolhem. “Invasor Abstracto” é a expressão nómada de um colectivo cujo trabalho artístico tem operado sobre a noção de território, nas implicações estéticas e políticas que esta pode ter na construção das comunidades temporárias que a OSSO promove, ou naquelas onde se insere. O Invasor Abstracto está na sua oitava iteração e já passou pelo Convento de São Francisco, Coimbra (2019), Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo (2020), Gnration, Braga (2021), TBA, Lisboa (2021), CCB Garagem, Lisboa (2022), Appleton Box, Lisboa (2022) e Atelier-Museu Júlio Pomar, Lisboa (2024), chegando agora ao Fundão.
A paisagem natural e humana da Cova da Beira, as comunidades locais e os seus traços culturais, foram o foco desta oitava “viagem” do OSSO Colectivo, que propõem agora a apresentação de uma exposição, um concerto, uma oficinas para crianças e uma conversa com estudantes de artes na MOAGEM-Cidade do Engenho e das Artes.
No último ano o OSSO Colectivo realizou períodos de residência no Fundão que serviram para conhecer e documentar algumas particularidades deste território que, desde cedo, se apresentaram como potenciais pontos de intersecção com as pesquisas artísticas que o colectivo tem desenvolvido no território onde habita em permanência: a aldeia de São Gregório nas Caldas da Rainha. Desde a identificação de cores naturais associadas à flora local, ao carácter territorial e “mágico” dos rituais associados aos Bombos de Lavacolhos, passando pelos ventos e remoinhos comuns nesta zona do país, até à indústria dos lanifícios e as suas histórias de nomadismo e transumância, a exposição que é agora apresentada na galeria d’A MOAGEM colocará por certo os visitantes perante um “território abstracto” feito de sons, formas, traços e cores que pertenceram outrora a estes dois lugares relativamente distantes e que, agora, dão corpo a mais uma “aparição” do INVASOR ABSTRACTO. Este carácter híbrido e compósito do Invasor estender-se-á ao concerto, à oficina e à conversa: interessa-nos que a miscigenação poética e intersecções entre territórios estejam presentes enquanto gestos estéticos mas também, e acima de tudo, enquanto gestos políticos para a criação de propostas de liberdade em comunidade.
No âmbito deste projecto estendemos um agradecimento especial ao Miguel Rainha que nos convidou a integrar o ciclo A Passagem, ajudando a desenhar a interação com pontos de interesse e pessoas da região. Agradecemos ao pastor José Martins Sabugueiro que teve a amabilidade de nos contar algumas das suas memórias de transumante, à Burel Factory na pessoa da sua directora e da equipa que tão bem nos recebeu para realizar as recolhas sonoras e aprendizagem sobre tecelagem industrial, ao grupo dos Bombos de Lavacolhos (Abílio Guerra, Américo Simão, Carlos Guerra, Gabriel Alves, Hugo Agulha, Luís Filipe Simão, Marc Matos, Pedro Garcia e Philippe Matos) que se disponibilizaram a trazer a sua arte mais uma vez ao espaço d’A MOAGEM para uma gravação sonora original, à Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade (Fundão) que nos auxiliou na pesquisa bibliográfica, até à Bina Paulo que nos acompanhou numa visita às Minas da Panasqueira. Agradecemos também ao Nuno Morão que esteve presente durante a primeira residência do colectivo e, por fim, agradecemos o apoio inestimável de toda a equipa da MOAGEM durante este ano.
OSSO colectivo Fundão, 8 de Novembro de 2024
Exposição
INVASOR ABSTRACTO #8
“são cordas de vento”
1. BORBORINHOS
: som multicanal usando altifalantes de contacto distribuídos por várias estruturas ressonantes.
Numa arena de paredes negras o som circula e acelera em espiral através das estruturas ressonantes que lhe dão forma. Ouve-se o murmúrio da transumância na caminhada lenta e cerimonial dos que seguem no rebanho, o vento que sussurra pelas fragas ou a dança e o movimento dos teares industriais. “Borborinho” é homófono de “Burburinho” e é o nome local e comum atribuído aos remoinhos de vento que surgem nesta zona do país.
2. POMAR
: segmentos de tubo de lã feltrada suspensos, pigmentos naturais, lastro de chumbo e arame
Lã feltrada tingida com pigmentos extraídos de plantas recolhidas nos pomares em torno da OSSO entre o Outono de 2023 ao Outono de 2024, São Gregório (Caldas da Rainha).
Esta “peça-dispositivo” é resultado do arquivo de cores e fibras vegetais provenientes da flora da Aldeia de São Gregório (OSSO), incorporando no seu processo criativo essa matéria-prima e os processos e tempo associados a essa recolha, arquivo e posterior transformação. Os desenhos-objecto são agora desenhos-tempo. A variação da cor da paisagem de São Gregório ao longo do ano, vai sendo revelada em dispositivos cromáticos apresentados em diálogo com a arquitectura de diferentes espaços e a flora de diferentes paisagens (OSSO, São Gregório, Junho 2023 e Atelier-Museu Júlio Pomar, Janeiro de 2024, MOAGEM, Fundão, Novembro de 2024). O arquivo e transformação de fibras vegetais e plantas tintureiras são, simultaneamente, matéria prima e desenho.
3. APARIÇÃO
: cadeira, auscultadores e gravação sonora binaural documentando uma performance do grupo de Bombos de Lavacolhos.
O grupo de Bombos de Lavacolhos “ocupa” a sala de exposições, preenchendo-a com a vibração profunda dos tambores, secundados pelas vozes e a flauta. A captação binaural envolve o ouvinte, transportando-o para dentro de um espaço acústico onde o grupo de tocadores ganha um corpo fantasmagórico que desafia a experiência do “real”.






